Sob a sombra de Carcosa: de Lovecraft a True Detective

O conto que abre o livro Sombras de Carcosa, da Editora Poetisa, é originalmente intitulado “An Inhabitant of Carcosa”. Traduzido por mim como "Carcosa", é ele que nomeia essa coletânea literária de terror cósmico (em inglês: Shadows of Carcosa).

Em um plano que nos remete ao mundo virtual de Matrix (ou seja, uma “realidade irreal”), os leitores são apresentados a um protagonista que vaga sem rumo por um lugar misterioso. Alegando ser da cidade de Carcosa – e despertando a desconfiança de quem o lê –, esse homem caminha, perdido, por uma paisagem desconhecida e, em diversas ocasiões, tece comparações entre a sua cidade de origem e esta que agora se vê explorando – espaços aparentemente muito distintos um do outro. É difícil, mesmo para os leitores mais atentos, afirmar com segurança se essa exploração ocorre em sonho ou na vida real – seria imaginação, delírio, outra dimensão... ou mesmo uma cidade concreta?

O conto já se inicia com uma prolepse bastante sugestiva – as palavras do filósofo Hali sobre a natureza da morte de corpo e espírito. Incapaz de se lembrar de como chegou ali, além de impedido de encontrar qualquer pista que o situe ou o conduza de volta à sua cidade de origem, o narrador vai duvidando, aos poucos, da própria sanidade.

As imagens descritas são surreais. Confuso com relação ao tempo (além do espaço), o narrador não faz ideia de quantas horas se passaram desde que começou a vagar por aquele cenário aterrorizante... Está aí o argumento central do conto de Ambrose Bierce, simples e efetivo, que influenciaria, para sempre, a maneira como se escreve e se filma o gênero fantástico.

Optei por traduzir o título do conto apenas como “Carcosa” – justamente com o intuito de amplificar o mistério referente à origem da personagem. A criação de Bierce é fonte de diversas referências, que se estendem do século XIX até a atualidade.

Alguns críticos acreditam que o nome da cidade fictícia Carcosa tenha sido escolhido pelo escritor inspirado na cidade histórica de Carcassonne, hoje em território francês, famosa por sua arquitetura medieval (declarada, inclusive, patrimônio mundial da UNESCO em 1997).

Após a sua publicação em Tales of Soldiers and Civilians (1891), o conto seria retomado como inspiração por muitos outros autores, entre os quais um contemporâneo a Bierce, R. W. Chambers (cujo “O Reparador de Reputações” também faz parte da coletânea Sombras de Carcosa).

Em 1895, Chambers publica a sua obra-prima, The King in Yellow (ou O Rei em Amarelo), cujos contos apresentam diversas referências ao legado de Bierce, sendo a cidade de Carcosa um cenário recorrente para as suas histórias. Chambers tira proveito da atmosfera sobrenatural que permeia o conto de Bierce: utiliza a cidade como porta de entrada para que os seus leitores respirem o ar de loucura, desespero e paranoia que circundam a sua narrativa – sentimentos já demonstrados com bastante veemência pelo narrador do conto de Bierce.

Cerca de trinta anos após a publicação do livro de Chambers, outro grande escritor dos gêneros de terror, fantástico e ficção científica também publicaria sua obra-prima com ainda mais referências a "An Inhabitant of Carcosa" – trata-se dessa vez de Cthulhu Mythos (1928), do renomado escritor H. P. Lovecraft (seu “A Cor que Caiu do Espaço” também integra Sombras de Carcosa).

Lovecraft parece ter consciência de que, ao recorrer à cidade de Carcosa, integra o imaginário do horror cósmico – termo cunhado por ele, mas que, na prática, já existia como gênero – ao seus mitos de Cthulhu. A fim de suscitar em seus leitores reflexões acerca do espaço – real ou místico – que ocupa a cidade, cuja localidade é desconhecida, a narrativa de Lovecraft transforma Carcosa em um dos elementos fundacionais para despertar em seus leitores a dúvida acerca daquilo que pertenceria à Terra ou a outros planos e planetas.

De lá para cá, muitos outros escritores – como Joseph S. Pulver, Karl Edward Wagner, James Blish, Paul Edwin Zimmer, Marion Zimmer Bradley, Lin Carter, Michael Cisco, John Tynes, John Clute, David Drake, Alan Moore e até mesmo George Martin – deram contribuições a esse círculo de referências e, consequentemente, promoveram a manutenção do imaginário de Carcosa, que, devido a essa tradição, permanece presente na atmosfera literária atual.

Na contemporaneidade, o caráter místico e sobrenatural da cidade de Carcosa sobrevive na série Game of Thrones (HBO, 2011). Nela, o local consiste em uma cidade lendária a leste do continente ficcional de Essos. Situada na costa sudeste do Hidden Sea, dentro das Mountains of the Morn, a Carcosa de GoT – caracterizada como estranha e sombria – é governada por um feiticeiro que alega ser o LXIX imperador da civilização de Yi Ti.

True Detective (HBO, 2014), por sua vez, vai ainda mais fundo no que concerne às referências ao mundo abstrato de horror cósmico desenvolvido tanto por Bierce quanto por Chambers (cujo Rei Amarelo, é também lembrado).

Muitos acontecimentos tangenciam Carcosa em True Detective. A dupla de investigadores que protagoniza a trama descobre um templo de pedra que parece apontar para a localização da misteriosa Carcosa; logo desvenda que o tal templo pertence, na verdade, ao possível integrante de uma seita bárbara, responsável pela morte de crianças. Mencionada no diário de uma das vítimas da seita – vítima esta cujos relatos fazem menção também ao Rei Amarelo, suposto líder durante os cultos –, Carcosa é retratada como o cenário da adoração ao demônio e do estupro ritualístico de crianças inocentes.

Assustadora, com um nome capaz de causar alucinações e delírio, a mítica Carcosa é como outra dimensão, uma fuga da realidade, saída da mente de um dos mais brilhantes escritores de literatura fantástica da história, o mestre Ambrose Bierce.

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