Os 13 Tique-Taques: nota do tradutor

Meu primeiro contato com o nome de James Thurber aconteceu em uma tradução. Era uma biografia em que um personagem coadjuvante era descrito como “Thurberesque”. Logo após vinha um complemento: “Witty but not very many words”. Ou “espirituoso, mas de poucas palavras”.Resolvi pesquisar mais. Entendi James Thurber como uma figura peculiar das letras e do cartunismo dos EUA na primeira metade do século 20.

Imagino que, para as gerações que nasceram entre as décadas de 1940 e 1970, ele tenha sido uma figura excêntrica, particular, pitoresca, de imaginação muito desvairada para se encaixar no perfil de literato sério, mas inteligente demais no que escrevia para se negar o espaço que teve na New Yorker – reduto de escritores excelentes – e nas editoras em que publicou uma pilha de livros. Além disso, ele não só escrevia, mas também desenhava, e desenhava muito. A comparação talvez seja um pecado, mas penso que Thurber era visto da mesma forma que o público brasileiro via Millôr Fernandes: a figura brilhante que trilhava sem medo a “alta” cultura literária e a “baixa” cultura do cartum.

Não sei dizer se Thurber chegou a ter alguma projeção no Brasil. O pequeno número de livros dele publicados aqui sugere que não. Por conta disso, minha tradução de “Thurberesque” naquele outro livro foi praticamente tirar o corpo fora: “à moda James Thurber”.

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Neil Gaiman diz que aprendeu muito sobre contar histórias lendo Os 13 Tique-Taques. E quando Neil Gaiman – de quem sou leitor assíduo e tradutor ocasional – escreve as histórias que escreve, vale a pena prestar atenção quando ele diz de onde tirou as habilidades.Enquanto me preparava e efetivamente enquanto eu traduzia Os 13 Tique-Taques, encontrei muitas declarações de fãs ardorosos do livro. A impressão que tive é que, se você lê (ou alguém lê para você) Os 13 Tique-Taques na infância, o feitiço é forte: como parece um livro infantil, soa como a prosa de livro infantil, mas não é um livro infantil, a dissonância cognitiva que ele provoca na mente pueril gera um trauma que não se resolve nem na maturidade.

(Comentário sobre o livro no Goodreads: “Não o recomendo como história de ninar para sua criança de seis anos. A não ser que você queira que ela fique que nem eu. Valeu, pai!”)

Gaiman diz que, quando foi morar nos EUA, ficou surpreso ao descobrir que Os 13 Tique-Taques não era conhecido por todas as crianças tal como Alice no País das Maravilhas ou, numa comparação moderna, Harry Potter. Além de ter emprestado o nome para chancelar esta reedição do livro de Thurber, o autor britânico diz que leu Os 13 Tique-Taques para todos os filhos. Provavelmente na esperança de causar o mesmo trauma que sofreu.

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Como leitor, sou dos que tende mais para a forma do que para o conteúdo. Na minha interpretação, The 13 Clocks dependia de uma tradução apegada sobretudo às rimas, às assonâncias, às repetições, aos jogos de palavras. O texto precisava provocar uma ginástica da língua – não o idioma, mas esse órgão muscular dentro da sua boca. Espero que ele seja bastante lido em voz alta, seja de você para uma criança (de zero a 120 anos) ou de você para você, em cela acolchoada ou não.

Tanto dei importância a esse aspecto do livro que me permiti inventar rimas onde o texto de partida não tinha. Para que eu não pareça muito metido na criação de Thurber, defendo que minhas invenções aconteceram pela lógica da compensação: inventei quase no mesmo ritmo em que não consegui atender a rimas ou outros jogos do original. Mesmo atento sobretudo à forma, não fugi do conteúdo.

Talvez outro tradutor optasse por fazer modificações mais profundas nas cenas ou na trama para conseguir um resultado estético mais agradável à língua – de novo, o órgão, não o idioma. Meu projeto de tradução, porém, não incluía isso, ficando à escolha dos críticos decidir se foi por devido respeito ao original ou covardia. falta de culhões – no sentido figurado, não em referência aos meus órgãos.

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James Thurber estava praticamente cego quando escreveu (ou ditou) Os 13 Tique-Taques. (O olho esquerdo ele não tinha desde os oito anos, após uma desastrosa brincadeira de Guilherme Tell com o irmão; o direito deteriorou-se com a idade.) Ele mesmo havia ilustrado todos seus livros anteriores, e dessa vez resolveu confiar as ilustrações ao amigo Marc Simont.

Thurber escreveu que o chapéu do Golux era “indescritível”. Quando Simont foi apresentar as ilustrações ao escritor – ou, no caso, explicar o que e como havia ilustrado – travou ao tentar descrever o chapéu do Golux.

Thurber ficou contente.

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